Quando a vida nos ensina a arte de criar
Por Ana Paula Cury
Certos acontecimentos em nossas vidas deixam por vezes marcas profundas. Sem que o saibamos eles se tornam modeladores de fortes traços da pessoa que seremos no futuro. A história que vou contar-lhes agora teve, sem dúvida, para minha própria vida e a de meus irmãos, esta qualidade.
Quando eu tinha entre cinco e seis anos, meu pai foi convidado a exercer o cargo de diretor administrativo-financeiro numa empresa de mineração de menor porte em Belo Horizonte, onde morávamos. Ele era muito respeitado por suas competências e qualidades como a ponderação, credibilidade, capacidade de mediação e negociação, entre outras. Justamente por isso, um dos sócios proprietários, num momento de dificuldades na gestão da empresa, entendeu que ele poderia contribuir muito para sanar problemas gerados por erros ou decisões equivocadas no âmbito administrativo, os quais vinham deteriorando progressivamente a situação financeira da mesma. Contudo, certos fatos a respeito da situação não lhe foram dados ao conhecimento de maneira detalhada, e somente quando ele já tinha assumido seu novo cargo é que se deu conta de que o caso era de quase insolvência.
Foi então que para surpresa de muitos, meu pai tomou uma séria decisão. Após considerar as possibilidades e circunstâncias, e contar com o aval de minha mãe – na alegria e na tristeza...- ao invés de dar a causa por perdida e abandonar a firma à sua própria sorte - como fez o sócio fundador que o havia convidado - com todas as consequências que adviriam para os funcionários dela, ele tomou para si a responsabilidade de saneá-la e reergue-la, colocando a serviço de tal propósito todos os seus talentos e sacrificando a si mesmo e certos projetos da vida pessoal pelo bem dos menos favorecidos. No sentido desta meta, ele trabalhou arduamente sem remuneração por alguns anos.
Ele certamente poderia buscar com muito mais facilidade que os demais operários de chão de mina, sua recolocação no mercado de trabalho. Mas suponho que seu coração ficou pesaroso e compadecido ao imaginar quantos homens, trabalhadores dignos, estariam impossibilitados de prover o sustento de suas famílias. O fato de serem muitos deles analfabetos ou semianalfabetos, sem recursos de qualquer sorte só agravava o quadro na parede de sua alma.
Ele tomou para si a responsabilidade de negociar dívidas, articular acordos, alongar prazos de pagamento a fornecedores, e renunciou ao próprio salário a fim de manter a folha de pagamento dos mais humildes e não ter de apelar para demissões do quadro de funcionários.
Minha mãe, sua companheira, certamente teve papel de extrema relevância, apoiando-o e encorajando-o a seguir na direção que lhe ditavam seus valores cristãos. Ela foi durante todo o tempo das vacas magras, o pilar da fé inabalável na providência divina. Jamais duvidou que tudo de que necessitássemos nos seria dado a tempo e à hora. Sem que o pudéssemos discernir naqueles dias, tivemos a graça de conviver com verdadeiras personificações de forças morais- a Fé e Inspiração divina, por um lado, e, por outro, o senso de Integridade, Justiça e Responsabilidade Social – que impulsionar-nos-iam na mesma direção anos mais tarde.
Naquele tempo, em consequência da resolução de vida de meus pais, passamos a estudar na escola pública. Minha mãe passou a trabalhar, adicionando aos afazeres domésticos, a confecção de arranjos de flores desidratadas, e peças de artesanato decoradas com muito gosto e vendidas na feira da praça da Liberdade aos domingos. Meu avô paterno acabara de falecer e seus bens foram partilhados entre os onze filhos vivos, permitindo ao meu pai contar com a renda da venda de um imóvel que lhe coube como sua parte. Isto, no entanto, muitas vezes era insuficiente para fazer face às despesas de uma família com quatro filhos em idade de crescimento e adentrando a vida escolar. Em contrapartida, a roda da compaixão e da fraternidade movida por meus pais tocou muitos outros que passaram a participar de algum modo desta história. Vestíamos as roupas de primos mais velhos, reformadas por minha mãe. Meu avô materno, estrategicamente, distribuiu alguns bens em vida aos seus filhos, de sorte a poder doar a casa que construíra e na qual vivera por décadas, à minha mãe. Com isto passamos a viver em casa própria eliminando os custos mensais do aluguel. A senhora que trabalhava em casa como cozinheira, a quem meus pais já não tinham condições de remunerar dignamente, dispôs-se a manter seu trabalho graciosamente se lhe fosse possível continuar morando e comendo conosco. E assim, muita ajuda foi recebida para que pudéssemos suportar os tempos difíceis até o fim do ciclo.
Às vezes não havia comida para pôr à mesa. Minha mãe não se apertava... dizia-nos: “hoje não vamos almoçar! Vamos fazer piquenique no quintal! E comíamos pão com manteiga e groselha diluída com tanto ou mais alegria do que se tivéssemos grandes iguarias!
Noutra ocasião, um tio que conhecia a situação e possuía uma fazenda, trouxe de lá, fresquinhas, hortaliças e jabuticabas para oferecer-nos. Mas não havia com que preparar os alimentos, nem sobrara dinheiro para comprar o óleo ou azeite a fim de cozinhar. Nesta hora, tocaram a campainha e ao atende-la, minha mãe recebeu uma senhora que batia de porta em porta, distribuindo amostras grátis de um azeite que estava sendo lançado no mercado.
O fato de termos vivido um tempo precioso de nossa formação com limitações financeiras revelou-se uma bênção em todos os sentidos. A carência não permitia, por exemplo, muita compra de brinquedos, dando espaço à força de fantasia e imaginação para um desenvolvimento pleno. Isto nos tornou mais tarde, pessoas mais criativas, vivazes e livres. Hoje todos nós estamos, cada qual a seu modo, envolvidos com projetos ou ações sociais em que procuramos oferecer a outros voluntariamente e em total doação o que nos foi dado desenvolver como dons e talentos. Todos os filhos se tornaram lideranças em seu próprio campo de atuação e carregam com profunda gratidão as marcas que se imprimiram neles pelo testemunho vivo de seus pais.