Uma história, Pepé me contou.

Por Amauri Falseti

Pepé era seu nome de guerra. Um menino da pá virada, como tantos outros que vivem em pequenas cidades do interior. Dona Elvira, ganhou muitos cabelos brancos na lida diária do cuidar desse menino levado da breca. Por outro lado seu pai, com a mesma preocupação de educar esse menino, tinha lá uma pitada de orgulho em ver e acompanhar as peraltices de seu filho, no fundo esse menino lembrava seu pai da sua infância, e a trazia de volta os momentos felizes guardados no fundo de suas memórias.

Moravam na Rua nove, duas quadras da praça da matriz. Era uma rua tranqüila desta cidadezinha, onde a noite todas as crianças da vizinhança brincavam. E sempre acompanhadas pelos olhares atentos dos pais sentados nas cadeiras colocadas em frente as portas de suas casas. Ao final desses dias quentes, aproveitavam os bons tempos na brisa fresca da noite, com intensos momentos da vida em comunidade, tinha paz e harmonia nas prosas trocadas enquanto assistiam às brincadeiras populares e animadas da molecada.

Pepé depois de assistir no cinema da praça com todos os seus amigos da rua, os diversos filmes épicos de história romana, grega, não podia passar pela frente da casa de dona Encarnação. Uma senhora espanhola, que possuía um jardim bem cuidado que separava sua casa da calçada, delimitado com uma cerca pequena muito bem feita de ripas de madeira, que lembrava uma espada ou uma lança romana, igualzinha daquelas dos filmes que o menino tanto adorava. Ele depositava um demorado olhar de desejo e encanto por aquela bem feita “espada romana”.

Pois bem, em uma tarde quando brincava de ser um gladiador romano, Pepé não teve dúvida, soube muito bem, onde buscar a sua espada para participar do “exercício militar” daquela tarde, proposto pela sua turma da rua.

Todas as crianças contemplaram a conquista do objeto cênico com orgulho, uma vez que um soldado de seu “exército” possuía tão bela obra. Eles também ficaram admirados com a coragem demonstrada pelo companheiro em praticar tal façanha, retirar uma ripa da cerca do jardim da dona Encarnação. Com certeza essa “ação” não passaria em branco, e o friozinho na barriga de todos estava presente.

Dito e feito. Estava lá em sua casa o pai de Pepé em uma tarde quente e tranqüila, sentado em sua máquina de costura executando mais um pedido de seus clientes, quando aparece dona Encarnação pedindo licença e atenção. Prontamente atendida, foi logo dizendo que o menino havia tirado de sua cerca uma ripa e ele deveria imediatamente devolve-la. Aquelas palavras soaram como uma grande ofensa para o pai de Pepé. Ele não aceitou a acusação de dona Encarnação e foi logo dizendo que ela deveria estar mal informada, pois seu filho não tinha o hábito de praticar ações desta natureza e, por favor, se retirasse imediatamente de sua casa. Sentiu como uma agressão sem precedente aquela cobrança da velha senhora. O que foi prontamente respondida com uma fala ainda mais forte, dizendo que ele não educava corretamente o seu filho.

As vozes exaltadas chamaram à atenção de dona Elvira e correndo chegou à sala de costura de seu marido. Assim que avistou a esposa, pediu para chamar seu filho sem demora. Demorou alguns minutos a chegada do menino e de pronto perguntou para ele se havia retirado a ripa da cerca do jardim de dona Encarnação. O menino pasmo, surpreso com a cena e a presença da senhora negou tudo sem nem pensar. Disse que não, que não havia retirado ripa nenhuma de nenhuma cerca de jardim.

Foi o suficiente para o pai dirigir à senhora palavras duras e obrigando-a deixar a sua casa, pois o menino era muito levado, mas entre a palavra dele e de qualquer outra pessoa ele acreditaria na palavra de seu próprio filho.

Pepé me contou esta história, com os olhos marejados, como um dia que ficou marcado por toda a sua vida. Naquele momento, me disse, entendeu o amor e o quanto seu pai o amava, descobriu também, os possíveis significados da verdade. Aprendeu como suas ações podem e sempre tocam as pessoas de formas e maneiras diferentes. Até hoje, nos momentos difíceis que a vida oferece, essa experiência serve de reflexão e apoio nas tomadas de decisões.

Ah, Naquela mesma noite ele devolveu a ripa da cerca da dona Encarnação.

Pepé ficou sem a espada romana, mas descobriu um código de guerreiro, graças ao amor e a confiança de seu pai.

#issoéaltruísmo